A TOSQUIA

A DELICADEZA NUM TRABALHO RUDE

“Na véspera, ao cair da tarde, fazia-se o tendal, com braçados de lenha, servindo de porta, em geral, umas gangalhas velhas, deitadas. O chão era muito bem varrido, depois de regado, para que a lã fosse, o menos possível, suja de terra.

No dia seguinte, muito cedo, mas já com o sol fora, vinha todo o rebanho ao monte, só ficando no tendal as cabeças que poderiam ser tosquiadas até à noite, fazendo-se o cálculo sobre a base de vinte cabeças por homem.

Este serviço, o da tosquia, era o serviço agrícola que se fazia com mais preceitos, uma verdadeira liturgia, rigorosa e complicada, de que pouco ou nada subsiste.

Quando chegava o momento de começar o trabalho, pela manhã, estava tudo as postos, cada tosquiador ao pé duma cabeça empiolada, a tesoura na mão, à espera que o mestre desse o sinal de começar, isto é, a primeira tesourada.

Mesmo o bom tosquiador, o que era perfeito na sua arte, deixava algumas vezes resvalar a tesoura da lã para a pele do animal, ferindo-o sem gravidade. O curativo fazia-se com uma cortiça queimada, que se passava na ferida, molhada em azeite, até se fazer negra a superfície sangrenta.”

 

Brito Camacho, in Memórias e Narrativas Alentejanas